agosto 21, 2004
FALA-SE DOS RETORNADOS
Nos anos 80, Fernando Dacosta, um dos mais brilhantes jornalistas portugueses, reabilitou os retornados aos olhos dos portugueses, explicando ao país o valor do seu contributo económico e social. Só que nós os refugiados, que nunca fomos retornados, também beneficiámos do seu belo texto e nunca lhe agradecemos. Da minha parte, aqui estou. Bem haja! Aos 40 anos de idade, os meus pais foram forçados a começar uma vida. O que deixaram para trás não foi muito senão a terra onde as minhas avós haviam nascido. Isto é, por lá, em Moçambique, ficou, ao abandono, uma parte importante da história da minha família. Jamais algum de nós a poderá recuperar. Por eles, quero prestar a minha homenagem aos quinhentos mil portugueses que, um dia, arregaçaram as mangas, desafiaram o tempo, sem medo e ambiguidades, e, cheios de confiança sem si próprios aprenderam com os seus filhos, a amar Portugal.
Lembro-me do dia em que fui buscar a minha mãe ao aeroporto. Já não a via há quase um ano. Trazia na mão uma cafeteira eléctrica, o símbolo da África em vias de desenvolvimento, e vestia um fato de calça casaco azul-bebé. Estávamos em 1977. Em pelo mês de Julho. Nesse ano, tinha comemorado o meu décimo sétimo aniversário. Já era crescida, mas, naquele dia, acreditem, voltei a sentir-me criança e, lembro-me bem, a criança mais feliz do mundo. De novo tinha a esperança de regressar a uma vida familiar normal. No aeroporto, havia multidões de pessoas que pareciam abandonadas ou, pelo menos, esquecidas da sorte. Havia negros, brancos e mulatos. Naquele tempo, só o aeroporto de Lisboa me proporcionava os cheiros e as cores da minha terra. O Rossio também. Mas eu tinha medo de viajar pela Praça D. Pedro IV, pois mesmo nós, jovens, éramos frequentemente rotulados de “retornados” e eu odiava ouvir aquela palavra. No caso da minha família, o termo não retratava a realidade porque, como já disse nenhum de nós retornava a Portugal. Bem pelo contrário, eu sou justamente a terceira geração que nasceu em África e, até ao dia 25 de Setembro de 1975, dia da independência de Moçambique, jamais alguém da minha família pensou abandonar as suas raízes históricas e culturais.
Durante um ano, a minha mãe trabalhou no antigo Teatro do Piolho. Saía de casa às seis da manhã e regressava pelas onze da noite. O meu pai percorria o país, vendendo carros. Lembro-me que quando dispensei o meu quinto ano do Liceu quiseram premiar o meu esforço e ofereceram-me uma viagem a um destino europeu. Escolhi Torremolinos. Queria Sol e água quente. Que desilusão! Nunca mais fui capaz de ir à praia. Mas o extraordinário é que, apesar de ter podido saborear praias de trinta quilómetros, batidas pelo Oceano Índico, ou de ter passado grande parte das minhas férias numa ilha paradisíaca, chamada Santa Carolina, nunca quis regressar a África.
Foi numa visita à Suíça que descobri a minha paixão pela Europa e pela sua cultura. Tinha então vinte anos. Esta paixão nunca acabou. A minha mãe foi a grande responsável por este eterno amor. Quando meu pai arranjou casa em Cascais, para que nós pudéssemos abandonar o quarto onde vivíamos com mais oito pessoas, eu e as minhas irmãs fomos chamadas a escutar um sermão. Foi pequeno. A nossa mãe é acertiva. Nas suas palavras, apenas uma questão: “Meninas, vamos começar uma vida nova. Não quero queixas nem lamúrias. Temos que ser capazes de ultrapassar este desafio”.
E fomos. Aqui estamos. Um dia, dissemos que as relações mais estáveis entre duas pessoas são aquelas em que estáveis entre duas pessoas são aquelas em que o amor nasce à medida em que o conhecimento mútuo aumenta. Anos mais tarde, foi pacificamente que percebi as razões pelas quais todos nós passámos a amar esta terra, que agora, também é nossa.
Não calculo as horas de angústia que os meus pais terão passado para que nós, os cinco, pudéssemos ter sobrevivido a este desafio. Também não calculo a alegria que sentem. A única coisa que sei é que eles foram capazes de começar uma vida nova aos 40 anos. Mudaram de continente, de casa, de emprego e de amigos.
Só a nossa família não mudou nunca.
(in Máxima 2003/06/16 15:27:35 )
Posted by jmpsoares at
05:47 PM
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OS RETORNADOS
“ A SURPREENDENTE INTEGRAÇÃO DOS RETORNADOS ”
Ainda hoje não se sabe ao certo qual o número dos portugueses que, desfeito o império colonial na sequência de 25 de Abril de 1974, retornaram de África. Algumas estatísticas referem oitocentos mil, outras um milhão. Vieram – o eco do seu êxodo condoeu então o mundo – de Angola, Moçambique, Guiné, S. Tomé e Príncipe, Cabo Verde, golfados em caudais intermináveis de espanto e desolação.
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A emigração, a guerra e o exílio tinham despovoado Portugal. Aldeias inteiras apenas albergavam velhos e crianças, povoações havia que não tinham sequer um habitante. Era um país de deserções e decrepitudes a viver das remessas dos emigrantes e dos militares – e da passagem dos turistas.
Então repetiram aqui o que há decénios faziam lá
”Portugal foi reconstruído pela energia dos retornados”, exclamará Agostinho da Silva.
"Eles lançaram mão a tudo, usaram com as pessoas de cá os mesmos métodos que usaram com as de lá. Não trouxeram divisas, como os emigrantes, mas construíram coisas”.
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“Portugal não fez ainda o seu luto pelas ex-colónias: o silêncio vai sendo levantado, gradualmente, mas a voz da perda não é ainda aceite”, escreve Ana Simões SottoMayor de Almeida em “O luto no retorno dos portugueses das ex-colónias africanas”, tese notável a ser em breve apresentada no ISPA.
Fechado o ciclo do império o retorno tornou-se (retorno de África, retorno da emigração) tão importante como há cinco séculos a partida – é por certo o fenómeno mais marcante da história de Portugal depois das Descobertas.
Interrompido desde então (todos quantos eram ousados e insubmissos partiam fugidos à fome, à intolerância), só agora o País está a reencontrar-se, a completar-se. O que coincide, e não é certamente por acaso, com a sua entrada na CEE.
Artigo de
Fernando Dacosta In o “PÚBLICO” de 26, Abril,1995
[TEXTO COMPLETO]
Um magnífico texto de Fernando Dacosta, sempre actual. Lembra um milhão de portugueses de primeira (*), e a sua epopeia por terras de África onde deixaram uma obra admirável, que se tenta muitas vezes
esquecer, denegrir ou alterar a sua autoria. Fechado o ciclo colonial, sendo "rejeitados" pelos novos poderes, foi a vez do regresso penoso às origens, onde mais uma vez esses portugueses souberam trabalhar, refazer suas vidas e mostrar as suas capacidades empreendedoras.
Passados mais de 30 anos, continua a ser um "tabú", um assunto espinhoso que se confunde com posições políticas.
Porque saíram de África, num curto espaço, um milhão de portugueses ?
Até que ponto as políticas e práticas dos dirigentes dos novos países, contribuiram para isso?
Até que ponto as decisões tomadas pelos políticos e militares que acabavam de fazer o 25 de Abril, contribuiu para esse êxodo?
É um dossier chamado Descolonização, que daqui a muitos anos, será discutido e incluído na história, como um acontecimento inevitável, mas desnecessariamente trágico, que afectou vários povos.
(*) muitas vezes maldosamente apelidados de portugueses de 2ª por terem nascido em África. O termo Retornado era muitas vezes usado como insulto simbolizando um conjunto de ideias de preconceito tais como (vêem tirar-nos os lugares, são ignorantes e impreparados, colonialistas, etc).
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04:42 PM
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agosto 12, 2004
Associação dos Naturais de Moçambique
Em plena 24 de Julho perto dos cafés Smarta e Palhota, um pouco antes da Pastelaria Princesa, funcionava a Associação dos Naturais de Moçambique. Ponto de encontro e convívio, lugar de muitas partidas de xadrez e de damas. Havia também muitas matinés dançantes. Eu ainda jovem, era mais olhos para as aparelhagens, marcas das violas e os pedais de efeitos uáuá, e gostava de seguir a movimentação dos profissionais das violas e os "breaks" do baterista. Alguns anos mais tarde também andaria por cima dos palcos com o meu conjunto, a ganhar uns tostões em casamentos e batizados.
Mas na Associação dos Naturais e com a idade que eu tinha na altura, interessavam mesmo, eram os casamentos. Quase todos os fins de semana lá havia uma boda, e eu era sempre "convidado" ou da noiva ou do noivo ! Eu e mais uns tantos malandros... Velhos tempos.
Pela imagem, não haverá mais casamentos ali. Também já não tenho idade para me armar em "penetra".
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06:55 PM
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